domingo, setembro 18, 2005

Morangadas

A R. tem 6 anos. Entrou agora para o 1º ano do primeiro ciclo (no meu tempo, primeira classe), recém saída de um dos Colégios mais elitistas da capital e com entrada directa para a escola-modelo mais em voga no momento (através de poderosíssimas cunhas, como se imaginará).


Os pais da R. são divorciados. Um divórcio civilizadíssimo, de comum acordo. Ambos quadros superiores, com um rendimento muito acima da média; o cuidado que ambos têm com a educação académica de ambos os filhos (a R. tem um irmão, o B., com 4 anos, ainda a frequentar o tal Colégio) é irrepreensível. Quanto ao resto... é outra história... As duas crianças vivem com a mãe e a avó materna, passando a mãe uma média de meia hora por dia, em dias alternados (leia-se em dias em que não tem nada de mais interessante ou lucrativo para fazer)

Em casa da R. existem, para 4 pessoas (dois adultos e duas crianças), 5 televisões. Cada criança dispõe, assim, de um televisor privado, onde pode ver seja o que for sem a mínima supervisão de um adulto. Tanto a R. como o B. estão a ser educados, quase em exclusividade, pela avó materna, senhora de rendimentos recentemente desafogados, via ordenado da filha e demais benesses da mesma, e totalmente deslumbrada pela ascensão social meteórica que, assim, conseguiu. Senhora, também, de uma vida ocupadíssima, consequência de horas e horas passadas em amena cavaqueira com outras senhoras tão ou mais deslumbradas, no café, ao telefone, com a vizinhança...

Desde o primeiro episódio que a R. não perde pitada dos “Morangos com Açúcar”. Devora cada minuto, estendida na sua caminha cor-de-rosa de menina, sozinha, totalmente sózinha. Absorve cada lição (?) ouvida, sabe o nome dos personagens, os dramas e cada um, quem namora com quem e quem diz o quê. E tanto a avó como a mãe acham muito bem que assim seja, porque “mais tarde ou mais cedo ela vai saber destas coisas, e não adianta nada proibir”. E é a própria avó quem a chama, interrompendo-lhe a brincadeira, ás 7 da tarde, lembrando que a novela vai começar...

Outro dia, a R. perguntou-me, curiosa, o que era perder a virgindade... E eu, do alto dos meus 43 anos, engasguei, gaguejei, e lá consegui dizer que era qualquer coisa que devia ter a ver com a Virgem Maria, e que perguntasse à mãe ou à avó. Ainda perguntei onde tinha ouvido falar de virgindade, e a resposta deixou-me... sem fala:
- Foi nos Morangos com Açúcar, tia, tava lá uma “lébica” a dizer que queria perder a virgindade...

Será que sou eu que sou antiquada ou o papel da televisão como baby-sitter já ultrapassou todas as marcas do humanamente aceitável? E a culpa é de quem? Não me venham dizer que é da RTP, ou SIC, ou TVI... Não caberá aos pais, de uma vez por todas, abdicar de qualquer coisa e voltar àquela prática da nossa infância, chamada “proibir o que é perigoso e faz mal”, baseada no bom senso de quem efectivamente se preocupa com as gerações futuras? Custa assim tanto roubar algum tempo à luta pelo sucesso e pela riqueza, e dedicà-lo á formação da mente dos mais pequenos?

Temo pela R. e pelo que tanta morangada está a fazer àquela cabecinha de 6 aninhos... E digo como dizia a minha mãezinha:

“Filha minha, NÃO!”





my pet!


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