sexta-feira, outubro 21, 2005

Fátima e Fé


A propósito do post do João Tunes sobre Fátima* ( http://agualisa4.blogs.sapo.pt/ ), onde tive a oportunidade de inserir um comentário breve básicamente concordante com o exposto pelo Padre Mário de Oliveira (“Contas à Vida”, Viriato Teles, Ed. Sete Caminhos), parece-me oportuno deixar aqui mais alguns pontos de vista que considero importantes.

Fátima, como local de culto mariano, há muito que deixou de o ser (se é que, alguma vez, o foi efectivamente). O que se passa em Fátima, actualmente, é o culminar de uma doutrinação secular baseada na idolatria herdada de práticas ancestrais e profundamente arreigadas na alma dos povos, Ibéricos e outros - Fátima é o supra-sumo da religião da culpa e do pecado sem salvação possível, a não ser através da mortificação masoquista e violenta, não da alma, mas do corpo. É o invólucro corporal que constitui o cerne que mantém Fátima viva - ir a Fátima, rezar em Fátima, fazer o sacrifício da deslocação para quilómetros de distância para poder estar lá, junto de todos aqueles que se mortificam e prejudicam a saúde física e mental, isso sim, é Fátima.

E é isso mesmo que continua a ser alimentado pelo clero católico. Não a oração interior, sincera, sentida e em comunhão com o místico Divino para alívio das dores da alma e louvor à Entidade Suprema. Joelhos esfolados, pés cheios de bolhas, desmaios por causa do calor ou do frio, horas sem fim de pé, isso sim, isso é SER CATÓLICO. Fortunas gastas em velas que ardem em piras de aspecto infernal, num festim de cera derretida e bolsos a encher para quem as fabrica e vende, isso sim, é RELIGIÃO. Milhares de euros gastos em flores de cheiro doentio para enfeitar uma qualquer imagem idólatra, fruto da imaginação e oportunismo político nascido numa época em que a religiosidade e o Estado eram um só e se sustentavam mútuamente, isso sim, é ORAÇÃO. E o aproveitamento de três crianças ignorantes e pobres, a cujas famílias não foi dada qualquer outra escolha senão fazer parte de todo um esquema montado cuidadosamente, e alimentado por muitas e muitas almas simples e crédulas que o aceitaram como facto consumado, isso sim, é SER CRENTE.

Não é essa a minha Fátima. Não é essa a minha fé, a minha tremenda fé em Maria, que foi Mãe humilde e mulher como eu. Não. A minha fé é outra, a minha oração é feita sem recurso à doutrina da culpa e à cultura do masoquismo. Sacrifícios? Faço, sim. Todos os dias. Mas não incluem gastar sapatos ou joelheiras para que as minhas orações sejam ouvidas. Nem incluem contratos de “toma lá, dá cá” com o Divino. A minha fé é uma fé de crescimento e reforma interiores, de aproximação aos Homens e de compreensão da vida e do Mundo. É uma fé que me diz que posso ter esperança, não num qualquer Paraíso do Além, mas numa aceitação tranquila do Mundo em que vivo e no esforço próprio para que esse mesmo Mundo seja um pouco melhor depois de eu o deixar.

O meu Cristo não é um Cristo morto na cruz, mas um Cristo vivo que me ensina todos os dias que “Onde estiver o tesouro, aí estará o coração”.

Por isso não acredito em Fátima, nem participo de toda a encenação e mistificação fatimista. Porque ser Cristão não é queimar velas, esfolar joelhos ou gastar meias solas. Ser Cristão é muito mais do que isso, e é por isso que é tão difícil sê-lo. É acreditar na Essência do Divino sem precisar do acessório físico que lhe dê suporte. E é, principalmente, usar a inteligência com que esse mesmo Divino me dotou para distinguir entre o que é negócio da fé e fé propriamente dita. A última não está lá, em Fátima - está dentro de cada um.
* - A quem agradeço a honra de ter aceite o meu comentário e o ter transformado num post acessório ao primeiro.
Maria, 21/10/2005





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