domingo, dezembro 18, 2005

Mago



Os mimos da D. Sância tinham-no desgraçado. Ah, mas a coisa ia mudar de figura! Estava farto de ser desfeitado. Ainda há bem pouco tempo... Chegara-se ao pé da mulher, disposto a impor a sua autoridade.

- Ouve lá, disseram-me que mos andas a pôr por aí com todo o mundo?!

E recebe esta pelas ventas:


- Bem haja eu!

- Bem hajas tu?!
- Nunca guardei respeito a maricas!...

Só a tiro! Mas a verdade é que a Faísca tinha razão. Lá de ano a ano é que vinha procurá-la, e isto de gado fêmeo quer assistência...

Além disso, pesadão, desconsolado. E até esquecido dos ganidos dessas horas... Uma vergonha!


- Aparece logo à noite, pelo Tinoco... Há reunião... E adeuzinho...
- Adeus, Lambão.

(...) Bons tempos esses! Namorava então a Boneca, uma gatinha-borralheira de a gente se perder.

- Ora viva!
- Miiau...

- Seja bem aparecida, a minha princesa!
- Miiau...


Mimo da cabeça aos pés. Mas um rebuçadinho! Depois, enrodilhara-se com a Moira Negra, um coiro velho, curtido e batido. Cada guincho que abria a noite!

- Cala-te lá com isso, mulher!...

Isso calava ela! Acabou por se aborrecer. Por fim, veio a lambisgóia da Perricha... Uns trabalhos. Ciúmes, fraqueza, dores de cabeça, o diabo!


- Matas-te, filho, arruínas-te...


Palavras sensatas da mãe.

- Muda de vida, homem! Essa excumungada leva-te à sepultura.

Mas o quê! O vício pode muito...


( "Mago", in "Miguel Torga, Contos", Ed. D. Quixote, 3ª Edição conjunta, Junho 2002)





my pet!


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