quinta-feira, agosto 31, 2006



Perdeu-se a conta ao número de mulheres portuguesas vítimas de violência doméstica - contam-se, entre elas, as chamadas "sobreviventes", porque conseguiram sair com vida da agressão. Falta explicar duas coisas: que tipo de "sobrevivência" espera essas vítimas, e por quanto tempo conseguirão escapar a nova investida violenta, uma vez que são raríssimos os casos em que o agressor é, de facto e na prática, separado da vítima e impedido de a contactar posteriormente.


Diz-me a experiência que é raro o agressor que não tenta, uma e outra vez, a vingança ou a retaliação pela queixa apresentada pela vítima - o que pode acontecer por via de novas agressões físicas e/ou psicológicas, retaliações a nível económico, ao nível da reputação da vítima, das relações familiares, sociais, etc, etc... No entanto, contam-se pelos dedos (de uma só mão?) os agressores que, mesmo que apanhados em flagrante delito de agressão, são detidos e impedidos de perpetrarem nova agressão.

Parece-me que a moda, hoje em dia, é o tão famigerado "termo de identidade e residência" (como se isto fosse, realmente, um país onde se cumpre tal coisa) ou, melhor ainda, o "aguardar julgamento em liberdade".
Pergunto: Que liberdade tem a vítima, sabendo que o agressor pode (e, na maior parte dos casos, vai) contactá-la, agredi-la, insultá-la uma e outra vez, sem que nada nem ninguém o possa deter? Que liberdade pode ter quem vive no medo, quem passa a olhar para trás a cada instante, quem tem como último e ineficaz recurso esperar por uma acção judicial demorada, tardia ou perscrita?

Liberdade não pode coexistir com medo. Nem com a frustração de se saber que, por muita legislação mediática que se faça, os efeitos práticos da mesma tardam, atrazam, ou não existem de todo - ao mesmo tempo que se encara, diáriamente, com quem nos privou de tal liberdade.

Vem isto a propósito de (mais) uma notícia - desta vez, com testemunhas policiais à mistura. Pergunto-me a mim mesma se o Juíz ou Juíza conseguirá voltar a dormir em paz depois de esta, ou outra vítima qualquer cujo agressor se passeia tranquilamente pelas ruas da cidade A ou B, for encontrada "já cadáver", como tanto se tem visto últimamente.


A notícia pode ser lida em
DETIDO POR AGREDIR ESPOSA - com especial atenção ao último parágrafo.

Decididamente, não gosto do meu país.

4 Comments:

At 3:41 da tarde, Anonymous Caminheiro said...

Sim, também não gosto "deste" nosso país.

O do primeiro mundo, com mentalidades continuamente atrasadas pelos interesses obscuros de alguns educadores.

O das legislações mais avançadas, impostas por políticos que mantém o estado de impunidade para quem não cumpre.

O que cultiva a máxima do salve-se quem puder, das cunhas porque o bom pai é o que trata bem dos seus filhos, mesmo que prejudique um país inteiro.

No "meu" país as pessoas deveriam ter vergonha de parar o trânsito na rua porque "só vou deixar sair o miúdo para a escola".

Felizmente, não conheço o problema das agressões. Mas tocou-me o referido último parágrafo.

 
At 9:00 da tarde, Anonymous VALMIR said...

Maria,gostei muito do teu blog,aprende-se muita coisa co ele.Abraços.

 
At 2:08 da manhã, Blogger Maria vai c'as ostras said...

Caminheiro e Valmir, obrigada pelos comentários - infelismente, por muito que se aborde este tema, nunca estará tudo dito, e pouco adianta... Mas a voz calada faz pior do que a voz no deserto, não é?

Jinhos, e voltem sempre.

 
At 8:15 da manhã, Blogger Maria said...

Aguardou em liberdade? Mas toda a gente viu o quanto ele é violento! Os polícias assistiram a tudo! E o "anjinho" aguarda em liberdade... Dá-me vontade de vomitar.

 

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