terça-feira, agosto 01, 2006

Silêncio


(Hoje, conheci alguém que, como eu, conhece o silêncio. É velha, e a revolta que já não sente senti-a eu...

Cansada. Sentia-se cansada, tão cansada... O corpo, outrora sob o seu comando, era agora feixe de vimes secos, tortos, mantidos juntos só por uma qualquer coincidência ou capricho sabe-se lá de quem ou quê. Doía-lhe, aquele corpo. Qualquer movimento era um esforço da vontade, um dizer àquele dedo “mexe-te” e ao outro “agora tu”...

Rodeava-a o silêncio. Não era má, aquela quietude, aquele zumbir constante a que já se habituara, de tantos anos a ouvi-lo. Chamava-lhe “a minha turbina dum navio”, pois era assim que se sentia: com a cabeça enfiada lá dentro, sempre a ouvir aquele zzzzrrrrrrzzzzrrrrrrzzzzzz que já fazia parte dela. Não tinha sido sempre assim, não... Antes, muito antes, o mundo tinha sons, o vento assobiava e as portas batiam quando o soalho rangia . Aquela “rolhinha” mágica tinha-lhe trazido o mundo possível, distorcido, sim, mas melhor do que mundo nenhum. Por incómodo que fosse, estava lá, e sempre ajudava . Agora ...

“ Tu sabes que os miúdos precisam de sapatos novos, e as aulas de equitação da mais pequena não podem parar, ela tem tanto jeito ... Além disso, para que precisa ela de aparelho? Cá para mim, já nem nos entende, sempre na lua, a recordar tolices de que já nem o diabo se lembra! Está velha, tem de se habituar à ideia, pronto ... Aquela porcaria custa os olhos da cara ... Ainda se fosse mais nova e menos senil, vá que não vá... “

...

No silêncio, ouve as vozes do passado que não a deixam, fecha os olhos e vê... Vê-se nova, de branco vestida ... Vê nascer aquele ser, tão pequenino, lembra-se de prometer cuidar dela para sempre, do que não fez e não viveu para que ela pudesse fazer e viver... Sorri um sorriso de velha, um sorriso secreto de quem sabe que, mesmo assim, valeu a pena...

Só tem pena de, quando o silêncio se calar, não possa ouvi-la uma última vez. Partirá com as memórias, dos sons e das palavras.

Há dores que só doem na alma em silêncio.

2 Comments:

At 10:05 da manhã, Blogger SPECTATOR said...

gostei imenso do texto!
jinhos!

 
At 2:04 da tarde, Blogger Maria said...

Não sei o que faria se um dia deixasse de ouvir... Sentiria falta dos gritos dos meus piriquitos, das músicas dos Pink Floyd, da voz da minha mãe, da minha irmã... Quando acabei de ler este post reparei que o meu rosto estava molhado... Chorara sem o saber...

 

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